segunda-feira, 25 de julho de 2011

A Vida na Arte Refletida - Eu Observava

          Esse texto foi fruto de um insight numa noite da qual me lembro bem por conta da vista privilegiada que tinha de Fortaleza do alto da serra de Palmácia, espero que gostem!


          Eu observava

     Enquanto dormiam, eu observava...
     Observava um vadio maltrapilho a valsar desastrado, rua acima, com uma garrafa de bebida barata ao som d’um silêncio sepulcral. Observava uma criança moribunda a colecionar estrelas cadentes, cadentes como seus últimos dias, com a ponta do indicador que, em seguida, levava-as ao bolso sem sequer notar que o mesmo, frouxo e áspero, encontrava-se furado. Observava um mendigo dividir seu desjejum com um cão que lhe lambia as mãos em sinal de gratidão. Pães e queijo mofados, naquele instante, lhes faziam parecer um rei e nada mais lhe era preciso. Observava um velho insone a acariciar uma foto desbotada de uma noiva já finada cujo o rosto há tempos esquecera, mas que dera lugar a uma ilusão fagueira de uma paixão sem nome e sem tempo. Observava, com a alvorada, estes e outros resquícios d’alguma pureza, por sua vez oriundos de milhares de sonhos flácidos, dissiparem-se na forma de rostos esquálidos, munidos de vaidades e mentiras ávidas por envenenar mais um dia, dia que eu, felizmente, apenas observava.

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