Eu observava
Enquanto dormiam, eu observava...
Observava um vadio maltrapilho a valsar desastrado, rua acima, com uma garrafa de bebida barata ao som d’um silêncio sepulcral. Observava uma criança moribunda a colecionar estrelas cadentes, cadentes como seus últimos dias, com a ponta do indicador que, em seguida, levava-as ao bolso sem sequer notar que o mesmo, frouxo e áspero, encontrava-se furado. Observava um mendigo dividir seu desjejum com um cão que lhe lambia as mãos em sinal de gratidão. Pães e queijo mofados, naquele instante, lhes faziam parecer um rei e nada mais lhe era preciso. Observava um velho insone a acariciar uma foto desbotada de uma noiva já finada cujo o rosto há tempos esquecera, mas que dera lugar a uma ilusão fagueira de uma paixão sem nome e sem tempo. Observava, com a alvorada, estes e outros resquícios d’alguma pureza, por sua vez oriundos de milhares de sonhos flácidos, dissiparem-se na forma de rostos esquálidos, munidos de vaidades e mentiras ávidas por envenenar mais um dia, dia que eu, felizmente, apenas observava.
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