quarta-feira, 4 de maio de 2011

Esmiuçando - Paralelas (Belchior)

          Mais um "Esmiuçando" e, dessa vez, trago a música de um grande cantor e compositor de nossa terra, Belchior, com essa música muito bonita chamada PARALELAS à pedido da Hanninha, pessoa especial que deve trazer alguma confusão (assim como ainda trago) sobre esses versos escusos, então espero poder trazer algo interessante para mim, para ela e para vocês, mas enfim, deixando isso de lado, vamos à música.



Paralelas
Belchior


Dentro do carro, sobre o trevo a cem por hora, oh! Meu amor
Só tens agora os carinhos do motor
E no escritório em que eu trabalho e fico rico
Quanto mais eu multiplico diminui o meu amor

Em cada luz de mercúrio vejo a luz do seu olhar
Passas praças, viadutos, nem te lembras de voltar
De voltar, de voltar

No corcovado quem abre os braços sou eu
Copacabana esta semana o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão

E as paralelas dos pneus n'água das ruas
São duas estradas nuas em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
Grito quando o carro passa: teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

No corcovado quem abre os braços sou eu
Copacabana esta semana o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão



     De início, foi impossível para mim não notar o emprego preciso de PARALELAS como título desta música visto que esta palavra sintetiza com exatidão o que Belchior canta: uma estória sobre amores que passaram a viver alheios um ao outro, movidos por um orgulho infantil que os dividiu mesmo contra a vontade íntima dos mesmos, que agora sofrem com as lembranças dos instantes em que estiveram juntos, revivendo-as em seu cotidiano de tão viva forma que o Cristo Redentor, por exemplo, ganha nova face e o mar carrega agora novo nome (seja de um ou d'outro) ou ansiando inutilmente por esquecê-las durante o mesmo quando, diz a música, arrisca um a vida de todo sentido vazia "sobre um trevo a cem por hora" enquanto o outro busca cegar-se diante do que sente enquanto imerge ávido no trabalho, tudo em vão. No fim, para uma estória como esta só me resta frustração afinal não se sabe ao final da mesma o que acontece com ambos, mas o tom sofrido da canção me faz lembrar o quão  "perversa é a juventude de um coração", fazendo-me imaginar apenas que só lhes restou viver por muito "o que é cruel, o que é paixão!"