sexta-feira, 29 de abril de 2011

À Flor da Pele - Reflexão

     Hoje me vi obrigado a sair de casa à tarde. Mesmo de carro, o trajeto foi terrível. Longo? Cansativo? Não, apenas reflexivo. Há exatamente uma semana, me via extasiado, ansioso por cada quilômetro que percorreria entre tons verdes e azuis, terra e céu, e para tal, não relutei em irromper impetuosamente meus anseios sobre a estrada mais uma vez (também muito bem acompanhado) por cerca de duas horas, tempo que levei até chegar em Palmácia. Os puros ares faziam-me transpirar de excitação, meu sorriso incontido engessou-se em meu rosto e meu hábito de poetizar tudo que escrevo me incomoda muito. Qual meu problema afinal? Tentarei não deixar que isso aconteça com freqüência (muito embora desta vez já tenha cedido a esse impulso), mas enfim, continuemos. Toda a serra se via em flor, em cada canto cores abundavam, fragrâncias eram mil e mais, recordações então!? Estes poucos dias que recordo saudoso me trouxeram aos punhados, uma inclusive de que não ousaria esquecer: Fortaleza. Àquela noite marcou-me. Vi Fortaleza sob as luzes que à noite a acalentavam. Parecia assim cintilar enquanto embebida por sono e sonhos que cedo se dissiparam enquanto do alto eu observava e, dei-me conta, me iludia ao crer que esta lembrança persistiria incólume. Hoje, enquanto os ébrios cobiçavam aqui o sono dos apaixonados, minha lembrança morria, a cidade gritava, e eu ensurdecido apenas ouvia. Eram buzinas ruidosas, trânsito selvagem, vozes esganiçadas vendendo suas almas e iguarias em cada sinal, tudo me incomodava e distraia, principalmente o cinza que por toda a cidade se estende. O verde e a vida (este ultimo em especial irreconhecível por aquelas rostos arraigador a seu próprio umbigo) pareciam frágeis entre tanto asfalto e cimento e, enquanto isso, meu rosto apenas se enrubescia de indignação à medida que refletia. "Por que"? Ou talvez "quando"? Não, "como", naquele instante o "como", me parecia a pergunta mais óbvia. Como chegamos a isso? Nossas vidas não valem mais que um obituário perdido entre páginas de jornal, nossas árvores são de pedra, nossos arranha-céus arranhavam também a vista de nosso mar, nossas estrelas (que numa outra noite, lembro, contei nove enquanto motivado pelo tédio que não morrera graças a minha matemática descabida) parecem ofuscar sua própria luz, para mim, são agora opacas, e nós, a tudo isso, parecemos indiferentes, apáticos, assim como nossos sonhos que, parafraseando Oswaldo Montenegro, "nossa geração não quer sonhar, pois que sonhe a que há de vir". Espero que os sonhos deles se realizem então, inspirados, claro, alguns pelos meus assim como fui inspirado (tenho essa pretensão, não nego). Mas enfim, apesar de egoísta, acho natural que deseje eu, enquanto escrevo este desabafo tolo, estar novamente no alto daquela serra, iludindo-me sem qualquer hesitação. Aliás, gostaria que outros comigo não hesitassem em fazê-lo, afinal o que é a ilusão mútua se não a utopia de muitos? Seria realidade? Seria possível? Continuarei pensando à respeito disso enquanto busco uma paixão para embalar o meu sono.

domingo, 24 de abril de 2011

A Vida na Arte Refletida - Bandolins

          Para retomar os posts (que espero que voltem a acontecer com alguma regularidade) escolhi por publicar uma poesia dele que, como poucos, parece conhecer o significa de "flor-da-pele" e o sentido da mesma se ver sempre em flor, Oswaldo Montenegro, que compôs músicas lindas como "Lua e Flor" e "Bandolins" (alguém notou que dele sou fã?), mas enfim, vamos ao poema:

     "O amor indo embora deixou o nervo a flor da pele, e como toda flor, a flor da pele é delicada. É preciso andar devagar, nosso amor é um menino dormindo, fogo e suave. Eu vou puxar pra sempre um lençol de estrelas. Ele vai te cobrir no frio e quando você me vir cuidando de alguém, é pra que esse alguém não te machuque. Vamos pro mundo que o mundo é nossa casa, solta tua gargalhada e vamos seguindo juntos, olhando lá em cima, pra sempre, os sinais do Cruzeiro do Sul."

          Espero que gostem tanto quanto eu gostei e, pra finalizar o post, uma das músicas mais bonitas que ele já compôs: