Mas enfim, como ainda não me foram dados textos de outras pessoas para serem postados, aqui vai mais um de autoria minha, uma crônica que espero que gostem.
Passional
Noite após noite, ali chorava. Fizera dali um templo erigido à lembranças e lágrimas, e nada além daquilo lhe restara. Nada além de uma rosa que, pétala à pétala, com os olhos marejados vira murchar. Também uma taça rasa de um bom Bordeaux avinagrado, uma chama sôfrega sobre um monte de cera sem forma e uma cadeira vazia a acompanhar-lhe naquele jantar. Nem mesmo sua etiqueta lhe restara pois, sobre a mesa, de modo ameaçador, uma faca de prata apontava sua lâmina serrilhada para longe do prato e, por produzir um reluzir metálico, ela profundamente o incomodara, tomando-lhe precioso tempo desperdiçado em insensata admiração, tempo este há muito dedicado a suas lamúrias que tomaram-lhe também o sono e a sanidade. Buscando corrigir tamanho erro, debruçou-se sobre a mesa e lentamente estendeu seu braço sobre a mesma, esgueirando-o através de tudo que havia disposto sobre ela. De início cruzou com sua taça, ignorou-a quando se deparou com a garrafa de vinho vazia, então a circundou com cautela a fim de não causar tumulto maior. Depois, o castiçal, de aspecto imponente, onde nada mais que um resquício de vela queimava, o desafiara a atravessá-lo, então o fez, mas incauto, e logo sentira, por conta disso, sua pele arder pela chama que com avidez tremulara. “Calor”, dissera inconscientemente, deslumbrado com singular sensação que o recordara algo por um breve instante. Logo parecia relevante para ele. Em seguida viu uma última taça a ornar a mesa. Está encontrava-se cheia, parecia ansiar por um gole capaz de sorver-lhe todo o vinho que por sua vez tomara-lhe até a boca, sufocando-a, assim pensou. Vã ilusão, penso eu, atribuída a uma simples taça cujo conteúdo parecia mais saboroso que sua saliva amarga. A sim, esta sensação ele conhecia bem, era inveja, mas agora, após tanto divagar, tinha a faca ao alcance do punho. Ele a toca e logo se vê tomado pelo gélido metal, tão frio quanto o impulso de morto que viria em seguida. “Irônico”, murmurou enquanto tomava forma em seu rosto um sorriso repleto de sadismo, sorriso este indiferente a face de sua silhueta enegrecida, impressa atrás de si sobre a parede marfim pela chama que parecia ainda a muito querer consumir, mas algo que através desta poderia se ver era o que viria à seguir. Um braço se ergue, este munido de faca e, por um instante, ele parece hesitar. Logo, a mesma vê-se brandida e, antes que pudesse ter sobre algo a sua fúria irrompida, um forte vento adentra o cômodo através de uma janela e apaga a insistente chama. Nada pudera se ver dali em diante, mas um tilintar metálica encerrara tamanha tensão. Em seguida, sobre a mesa, um subido golpe se faz ouvir e logo se emudece tão subitamente como quando surgira, deixando que apenas um gotejar passasse a ecoar soberbo pela sala, incessantemente. Foi o que por muito tempo se pôde ouvir até que vieram os firmes passos que se direcionaram à porta que, quando aberta, trouxe luz àquele cômodo, revelando a faca que, embebida em vinha, jazia inerte sobre o chão d’onde parecia brotar um veio de escarlate líquido oriundo na verdade da mesa que parecia sangrar, ferida pelo passado que sobre si se apagara, passado que nada mais deixara para trás, nem sequer vinho, nem flor, nem vela, nem homem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário